Valor Mortis é a maior evolução dos soulslikes dos últimos anos?

Valor Mortis é a maior evolução dos soulslikes dos últimos anos

Valor Mortis aposta em combates em primeira pessoa, ambientação napoleônica e novas possibilidades para o gênero, mas será que suas ideias são suficientes para representar uma verdadeira evolução dos soulslikes?

 Durante muito tempo, os jogos soulslike seguiram uma estrutura bastante conhecida. Combates difíceis, inimigos capazes de derrotar o jogador em poucos segundos, chefes gigantescos, exploração cheia de perigos e aquela sensação constante de que qualquer erro pode custar caro. Desde que Dark Souls ajudou a popularizar esse modelo, diversos estúdios tentaram reproduzir a fórmula, alguns com bastante sucesso, enquanto outros acabaram entregando experiências que pareciam familiares demais.

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Mas existe uma questão interessante: será que o gênero começou a ficar preso às próprias convenções? Afinal, depois de tantos jogos seguindo praticamente os mesmos princípios, encontrar uma experiência que realmente apresente uma proposta diferente se tornou cada vez mais difícil.

É justamente nesse cenário que entra Valor Mortis, um soulslike desenvolvido pela One More Level que tenta mexer em uma das características mais tradicionais do gênero: a perspectiva em primeira pessoa. E essa mudança pode parecer simples à primeira vista, mas abre espaço para uma experiência bastante diferente daquilo que estamos acostumados a encontrar nesse tipo de jogo.

A pergunta, portanto, é inevitável: estamos diante de uma das maiores evoluções dos soulslikes dos últimos anos ou apenas de uma experiência que utiliza uma câmera diferente para apresentar uma fórmula já conhecida?

Captura de tela nº 0
Reprodução: One More Level

O gênero soulslike começou a ficar preso à própria fórmula?

Não é exagero dizer que os soulslikes se tornaram um dos gêneros mais influentes da indústria nos últimos anos. O sucesso de Dark Souls abriu caminho para uma quantidade enorme de produções que passaram a utilizar elementos semelhantes, desde o combate baseado em gerenciamento de stamina até a exploração de cenários interconectados, chefes difíceis e sistemas de progressão que punem o jogador por seus erros.

Jogos como Bloodborne, Sekiro: Shadows Die Twice e Lies of P demonstraram que ainda existe espaço para trabalhar essa estrutura de maneiras diferentes. Cada um encontrou uma identidade própria, seja pela velocidade dos confrontos, pelo sistema de aparos ou pela maneira como apresenta seus mundos e personagens.

Entretanto, também existe um problema nessa popularização. Muitos desenvolvedores passaram a enxergar o soulslike como uma receita pronta. Basta colocar alguns inimigos difíceis, criar um chefe com várias fases, espalhar pontos de descanso pelo mapa e adicionar uma moeda que o jogador perde ao morrer para começar a construir algo que lembre o gênero.

O problema é que isso nem sempre resulta em uma experiência interessante. Dificuldade, por si só, não significa qualidade, assim como repetir mecânicas consagradas não representa necessariamente uma evolução.

É justamente por isso que propostas como Valor Mortis chamam a atenção. Em vez de simplesmente reproduzir todos os elementos conhecidos do gênero, a One More Level decidiu experimentar algo que muda diretamente a maneira como o jogador enfrenta seus adversários.

A primeira pessoa pode mudar completamente a experiência de um soulslike

Talvez a maior contribuição de Valor Mortis esteja justamente na escolha de abandonar a tradicional câmera em terceira pessoa.

Em jogos como Dark Souls e Elden Ring, enxergar o personagem e os adversários ao mesmo tempo faz parte da identidade do combate. O jogador observa os movimentos dos inimigos, identifica os momentos de ataque, calcula a distância e procura a melhor oportunidade para contra-atacar.

Em primeira pessoa, essa relação muda consideravelmente. O jogador deixa de observar o protagonista executando os movimentos e passa a enxergar os confrontos diretamente pelos olhos dele. Isso aproxima os inimigos da tela, aumenta a sensação de perigo e transforma até mesmo um adversário comum em uma ameaça muito mais presente.

Captura de tela nº 1
Reprodução: One More Level

Em Valor Mortis, essa escolha funciona especialmente bem nos confrontos individuais. Quando um soldado infectado se aproxima com uma espada, cada movimento precisa ser observado com atenção. Um aparo executado no momento correto produz uma sensação de impacto muito interessante, enquanto uma esquiva mal calculada pode resultar em uma morte bastante frustrante.

Existe também uma diferença importante na percepção dos espaços. Em terceira pessoa, o jogador normalmente consegue observar melhor o posicionamento dos adversários ao redor. Já em primeira pessoa, a visão fica naturalmente mais limitada, tornando os confrontos contra vários inimigos uma experiência mais caótica.

Isso significa que a câmera não funciona apenas como uma mudança estética. Ela interfere diretamente na maneira como o combate acontece, trazendo vantagens e limitações que não aparecem com a mesma intensidade nos soulslikes tradicionais.

E talvez seja justamente esse o ponto mais interessante da proposta: Valor Mortis demonstra que uma mudança na perspectiva pode alterar profundamente uma mecânica que parecia bastante estabelecida.

O combate não depende apenas de apertar botões

Outra característica que merece atenção é a maneira como o jogo utiliza aparos, esquivas, armas de fogo e habilidades sobrenaturais para construir seus confrontos.

Em muitos soulslikes, o jogador pode escolher entre diferentes estilos de combate, utilizando escudos, armas pesadas, ataques rápidos ou habilidades especiais. Valor Mortis segue uma direção um pouco diferente, colocando bastante importância na leitura dos movimentos dos adversários e na execução precisa das defesas.

Captura de tela nº 2
Reprodução: One More Level

Os aparos são especialmente importantes. Acertar o tempo de um bloqueio permite desequilibrar o inimigo e abrir espaço para uma finalização. Quando essa mecânica funciona, os confrontos apresentam um ritmo bastante satisfatório, principalmente porque a câmera em primeira pessoa deixa os movimentos muito mais próximos e intensos.

As armas de fogo também ajudam a diversificar as possibilidades, embora não sejam uma solução para todos os problemas. A munição limitada exige que o jogador pense antes de utilizá-las, enquanto os poderes sobrenaturais oferecem alternativas para lidar com determinadas situações.

O resultado é um combate que preserva algumas das características fundamentais dos soulslikes, mas tenta encontrar uma identidade própria por meio da perspectiva e da combinação de ferramentas disponíveis.

Naturalmente, nem tudo funciona perfeitamente. Existem situações em que a câmera dificulta a leitura dos ataques, principalmente quando vários adversários aparecem ao mesmo tempo. Ainda assim, a proposta demonstra que o combate em primeira pessoa pode funcionar em um gênero que tradicionalmente depende bastante da visão do personagem e dos inimigos.

 

A ambientação também ajuda Valor Mortis a construir sua identidade

Não é apenas a câmera que diferencia o jogo de outras produções do gênero. A escolha de utilizar uma versão alternativa da Europa durante as Guerras Napoleônicas também contribui bastante para sua personalidade.

Em vez de recorrer aos tradicionais reinos medievais, castelos e criaturas de fantasia, Valor Mortis apresenta um mundo marcado pela guerra, pela destruição e por uma praga sobrenatural que transforma soldados e habitantes em criaturas grotescas.

Essa combinação cria uma atmosfera bastante particular. O jogador percorre campos de batalha, construções abandonadas e localidades devastadas, encontrando diferentes manifestações do horror que tomou conta daquele universo.

Captura de tela nº 4
Reprodução: One More Level

A direção artística consegue aproveitar bem essa proposta, principalmente na construção dos inimigos e dos ambientes. Existe uma sensação constante de decadência, como se aquele mundo estivesse tentando continuar funcionando mesmo depois de ter sido completamente destruído.

Essa escolha também mostra como os soulslikes podem encontrar novas possibilidades sem necessariamente abandonar suas principais características. Não é preciso utilizar dragões, cavaleiros medievais e castelos para construir um mundo sombrio e perigoso.

Valor Mortis utiliza referências históricas como ponto de partida e acrescenta elementos de terror corporal e fantasia para criar uma experiência com personalidade própria.

Mas será que todas essas mudanças realmente representam uma evolução?

Aqui chegamos à parte mais importante da discussão.

Depois de aproximadamente 30 horas jogando Valor Mortis no PlayStation 5, minha impressão é que a One More Level conseguiu construir uma base bastante interessante. A perspectiva em primeira pessoa funciona, o combate apresenta bons momentos e a ambientação ajuda a criar uma identidade que não depende exclusivamente de copiar outros jogos conhecidos.

Entretanto, existe uma diferença entre apresentar boas ideias e conseguir desenvolver todas elas até o máximo de seu potencial.

Captura de tela nº 6
Reprodução: One More Level

Durante a campanha, algumas limitações começam a aparecer. A variedade de inimigos poderia ser maior, determinados confrontos acabam ficando repetitivos e a história, embora cumpra seu papel, segue uma estrutura relativamente convencional.

A trilha sonora também não chega a ser um dos grandes destaques da experiência. Além disso, o desempenho no PS5 apresentou algumas quedas pontuais de FPS durante minha jornada, embora não tenham sido frequentes.

Esses problemas não anulam as qualidades do jogo, mas mostram que ainda existe bastante espaço para aperfeiçoar essa proposta.

Na verdade, é justamente aqui que precisamos ter cuidado ao falar sobre evolução. Uma experiência pode apresentar uma ideia muito interessante sem necessariamente conseguir superar todos os jogos que vieram antes dela.

Valor Mortis não possui a mesma variedade de possibilidades de construção de personagem encontrada em alguns grandes representantes do gênero, nem apresenta uma campanha capaz de manter o mesmo nível de novidade durante toda a jornada.

Portanto, seria exagerado tratá-lo como uma revolução completa dos soulslikes.



Valor Mortis pode abrir caminho para uma nova geração de soulslikes?

Talvez a maior importância de Valor Mortis não esteja necessariamente naquilo que ele conseguiu entregar, mas nas possibilidades que sua proposta apresenta para outros desenvolvedores.

Durante anos, muitos jogos tentaram encontrar maneiras de aperfeiçoar a fórmula criada por FromSoftware. Alguns apostaram em mundos maiores, outros investiram em combates mais rápidos, enquanto determinadas produções procuraram adicionar elementos de outros gêneros.

Valor Mortis segue outro caminho ao questionar uma característica que parecia praticamente indispensável: a perspectiva em terceira pessoa.

Captura de tela nº 8
Reprodução: One More Level

E isso pode ser mais importante do que parece. Quando um desenvolvedor decide experimentar uma estrutura diferente, ele abre espaço para novas maneiras de construir confrontos, explorar cenários e transmitir a sensação de perigo.

É claro que a primeira pessoa não precisa se tornar o novo padrão dos soulslikes. Na realidade, cada perspectiva apresenta vantagens e limitações próprias, e existem experiências que simplesmente funcionam melhor com a câmera tradicional.

Mas a indústria precisa justamente desse tipo de experimentação. Se todos os estúdios continuarem seguindo exatamente as mesmas referências, dificilmente encontraremos propostas capazes de surpreender os jogadores.

Nesse sentido, Valor Mortis merece reconhecimento por tentar algo diferente, mesmo que nem todas as suas ideias tenham alcançado o resultado esperado.

 

Uma evolução interessante, mas ainda distante de uma revolução

Afinal, Valor Mortis é a maior evolução dos soulslikes dos últimos anos?

Minha resposta é que talvez ainda seja cedo para colocar o jogo nesse patamar. Existem produções que conseguiram transformar o gênero de maneira mais profunda, e o trabalho da One More Level ainda apresenta limitações que impedem uma comparação tão grandiosa.

Entretanto, isso não significa que sua proposta seja menos importante.

Valor Mortis mostra que ainda existe espaço para experimentar dentro de um gênero que muitas vezes parece preso às próprias convenções. A primeira pessoa muda a relação entre jogador e inimigos, o combate ganha uma dinâmica diferente e a ambientação napoleônica oferece uma alternativa interessante aos mundos de fantasia medieval.

O jogo não é perfeito, não resolve todos os problemas dos soulslikes e também não apresenta uma fórmula que precisa ser seguida por todos os próximos lançamentos.

Mas talvez a verdadeira evolução esteja justamente nisso: demonstrar que ainda existem caminhos que não foram explorados e que o gênero não precisa permanecer eternamente preso à mesma estrutura.

Se a One More Level conseguir aproveitar os acertos e corrigir as limitações de Valor Mortis em seus próximos projetos, poderemos estar olhando para o início de uma experiência ainda mais ambiciosa.

E, para um gênero que precisa constantemente encontrar novas maneiras de surpreender seus jogadores, isso já é um ótimo sinal.

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